Jornal Nacional tenta sem êxito se adaptar às redes sociais

Procurei na caixa de e-mails um artigo antigo que escrevi sobre o Jornal Nacional, de pelo menos 17 anos. Não encontrei, devo antecipar, mas me recordo das principais indagações, que persistem.

Jornal Nacional

Ainda cursava o que se chama hoje de “ensino médio”. Creio que escrevi o artigo em 2001 para a coluna eletrônica (antes dos blogs) de um grande amigo, Luís Alberto Caldeira, à época, formando em Jornalismo.

Aliás, nessa época, reformularam o cenário do Jornal Nacional, a fim de adaptá-lo ao estilo dos telejornais americanos. O cenário em que o pioneiro Cid Moreira apresentava as notícias de paletó, gravata e cueca cedeu espaço para a redação high-tech.

O artigo consistia em uma crítica ao JN. Como pode um jornal de meia hora contar as principais notícias de um país continental, com dezenas de milhões de habitantes? Quem é que escolhe as notícias que serão veiculadas e qual é o poder que isso representa? Por que o JN concentrava mais da metade da audiência do horário?

Jornal Nacional

Os canais de televisão são concessões públicas. Nunca vou entender qual é o interesse público envolvido na exibição de programação tão chula. Esse não era um debate ideológico. Porém encontrei parte das respostas sobre o Jornal Nacional nos livros de história.

Em 31 de agosto de 1969, uma junta provisória assumiu o comando do país, no lugar de Pedro Aleixo, vice-presidente civil de Costa e Silva. O então presidente, Costa e Silva, foi afastado do poder após um derrame cerebral. E o regime militar recrudesceu ainda mais.

Coincidência ou não, no dia seguinte à posse da junta provisória, que mais tarde empossaria Médici, estreou o Jornal Nacional, em 1º de setembro. Cid Moreira deu em 1º de setembro de 1969 o primeiro “boa noite” no JN.

Assim, o Jornal Nacional dispensa maiores apresentações. O objetivo do JN não era obviamente promover o debate, mas homogenizar a informação, do Oiapoque ao Chuí.

Alguns anos após as minhas divagações sobre o telejornal, em 2005, me recordo que emergiu a célebre frase atribuída ao editor-chefe, William Bonner, para retirar da pauta uma reportagem que seria exibida: “Essa o Homer não vai entender”.

Outro texto veio à tona depois, Dormir é o melhor remédio, em 2008. Dessa vez o artigo foi também impresso em um jornal regional. O título inicialmente era Boa noite, resolvi trocá-lo, porque o assunto já estava cansativo para mim: “E boa noite, tenha bons sonhos!”.

A tentativa frustrada do JN para se adaptar às redes sociais

Hoje o desafio do JN é se adaptar às redes sociais, o novo paradigma das tecnologias da informação. O desafio é, todavia, inconciliável. A eleição expôs muito bem a tentativa frustrada.

A princípio, surgiu O Brasil que eu quero, um quadro em que pessoas desconhecidas aparecem em locais públicos para dizer o que esperam dos futuros governantes. As frases são curtas, como no Twitter. A participação é, no modelo em rede, supostamente democrática. Pausa para falar do tempo, com hashtag.

É um destrambelho. Todos têm os mesmos sonhos, com algumas variações sutis, como se o futuro dependesse apenas dos políticos. É a mais pura enganação, porque a riqueza do país é produzida pelas pessoas. O Estado representa a subtração na equação.

Na fórmula do PIB, a redução dos gastos do governo representa mais riquezas para o povo. O que muita gente ainda não aprendeu é que se o PIB está crescendo pouco, ou se retraindo, ao passo que os gastos públicos são crescentes, quer dizer que as pessoas privadas estão se tornando mais pobres.

O que já foi produzido e se transforma em tributo apenas vai sendo transferido da mão particular para a pública. Para a mão de quem, afinal?

A verdade é que todos sabem de cor o Brasil que querem, poucos trabalham para que “O Brasil que eu quero” se torne realidade. Preferem esperar com as mãos para o céu.

Por último, o JN apresentou uma série de entrevistas dos presidenciáveis. A série é mais memorável pelos memes que pulularam em meio às gafes dos jornalistas. É a face rasteira da Internet, o discurso de ódio, nenhum candidato foi interpelado para falar de propostas.

Fake news e bate-bocas. Vídeos foram então publicados mostrando a população comemorando de suas casas a desmoralização dos entrevistadores pelos entrevistados.

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