Grendene: RI esclarece suposta relação com Ciro Gomes

Recentemente, diversas notícias circularam nas redes sociais tratando de uma suposta relação entre a Grendene e o candidato Ciro Gomes.

Grendene fake news

A mais recente dessas notícias foi publicada em um portal de jornalismo chamado Spotnicks. Indagada, a Diretoria de Relação com Investidores da companhia esclareceu por e-mail os fatos.

Grendene

A Grendene é uma companhia aberta, fundada em 1971, cujas ações são negociadas na Bolsa. É uma das maiores produtoras mundiais de calçados.

A companhia é detentora das marcas Melissa, Grendha, Zaxy, Rider, Cartago, Ipanema, Pega Forte, Grendene Kids e Zizou. Atua também através de licenciamentos de celebridades, como Gisele Bündchen, e dos principais personagens do universo infanto-juvenil.

As unidades industriais da Grendene estão distribuídas: no Ceará, nas cidades de Sobral (1993), matriz (sede social) e maior planta, com seis fábricas de calçados, uma fábrica de PVC e um CD (Centro de Distribuição); Fortaleza (1990), duas fábricas de calçados e componentes de PVC; Crato (1997) uma fábrica de calçados e de componentes em EVA; no Rio Grande do Sul, na cidade de Farroupilha (1971) uma fábrica de calçados, matrizaria e sede administrativa, e; na Bahia, uma unidade na cidade de Teixeira de Freitas (2007).

Coincidências e notícias sobre a suposta relação entre Grendene e Ciro

A Grendene chegou ao Ceará em 1990, com a instalação das fábricas em Fortaleza. Pela primeira vez deixou o Estado do Rio Grande do Sul, onde foi fundada.

Coincidência ou não, em 1990, Ciro Gomes era prefeito de Fortaleza. Nesse ano, a propósito, Ciro foi eleito governador do Ceará, e dirigiu o Estado até 1994. Ou seja, em 1993, enquanto Ciro era governador, a Grendene transferiu a sede da companhia para Sobral, onde Ciro é radicado.

Sobral é também a cidade natal da família paterna de Ciro Gomes. O atual prefeito de Sobral é o irmão de Ciro, Ivo Ferreira Gomes. Outro irmão do candidato à presidência do PDT, Cid Gomes, ministro da Educação no Governo Dilma, foi governador do Ceará até 2015, e foi ainda prefeito de Sobral, entre 1997 e 2005.

Há, inequivocamente, enormes coincidências nos acontecimentos, mais propícias, infelizmente, para o surgimento de boatos, em especial, durante a corrida eleitoral.

A mais robusta talvez dessas teorias sobre Ciro Gomes e sua família é veiculada no portal Spotnicks. Um vídeo do portal circula nas redes sociais, que faz uma comparação, contestável, entre os valores das supostas doações dos sócios fundadores da Grendene com os incentivos fiscais estaduais:

Apesar das coincidências, é preciso considerar que, além do cenário fértil para a proliferação de fake news, fato é que muitas indústrias se instalaram no Ceará nas década de 1980 e 1990, motivadas pelos incentivos fiscais. Há diversos trabalhos acadêmicos publicados que retratam essa realidade, como o do Professor Fernando José Pires de Sousa, da Universidade Federal do Ceará.

Verifiquei as doações dos sócios fundadores nas eleições deste ano, apesar de que não fazem mais parte do quadro de executivos da Grendene. As informações podem ser consultadas no TSE.

Alexandre Grendene Bartelle (CPF 098.675.970-87) doou R$ 260 mil ao DEM-RJ e a uma candidata do PTB-RS. Já Pedro Grendene Bartelle (CPF 098.647.840-72) doou R$ 230 mil ao DEM-RJ e a dois candidatos do PP-RS.

Pessoas jurídicas não podem mais fazer doações nas eleições.

Outra notícia deste mês, publicada pela Veja, dá conta de luxos bancados pela Grendene à família Ferreira Gomes.

Fale com RI

Para elucidar melhor a questão, entrei em contato então com a Diretoria de Relações com Investidores da Grendene, em 13/9, através do e-mail.

As indagações, feitas com base nas afirmações do vídeo divulgado, seguem abaixo, e, na sequência, a resposta da DRI:

Boa tarde!
[…] gostaria que confirmassem as informações que estão circulando na Internet sobre uma suposta ligação política entre a Grendene e em especial a família de Ciro Gomes, desde a transferência da sede da companhia de Farroupilha, Rio Grande do Sul, para Sobral, no Ceará, em 1993, motivada por incentivos fiscais, quando Ciro Gomes era governador do Estado, mediante uma suposta contraprestação de doações a partidos e a campanhas políticas.
A notícia pode ser acessada nesse endereço: <https://www.youtube.com/watch?v=L2reZzco20A>.
Obviamente, em princípio, não existe nenhuma ilegalidade na transferência da companhia para o Ceará por causa dos incentivos fiscais, tampouco na doação pelas pessoas físicas para campanhas e partidos políticos. Porém o vídeo mencionado aponta uma regularidade atípica e também uma proporcionalidade entre as doações realizadas pelos sócios fundadores da companhia, Alexandre Grendene Bartelle e Pedro Grendene Bartelle, e os incentivos fiscais recebidos pela companhia, no patamar de milhões de reais. Para ilustrar, em 2017, ocorreram doações para o PDT, atual partido de Ciro Gomes, e para o PT, partido de Camilo Santana, atual governador do Ceará, apoiado por Ciro Gomes. Uma das fontes citadas no vídeo é o TSE.
Além disso, é possível que a queda recente dos preços das ações da companhia esteja relacionada com essas notícias? Há notícia sobre alguma investigação penal em curso? 

Resposta do DRI da Grendene

No dia seguinte, recebi a resposta do Diretor Financeiro e Relações com Investidores da Grendene, Francisco Schmitt, na íntegra, para que possam extrair as suas próprias conclusões:

Prezado Maurício,

A Grendene não comenta notícias da internet.

Em relação as suas perguntas esclareço que:

1) A primeira fábrica da Grendene no Ceará foi em Fortaleza em 1990 quando o Governador do estado era o Sr. Tasso Jereissati.

2) Já existia no estado a legislação sobre incentivos e a Grendene apresentou projeto conforme regras publicamente estabelecidas na legislação que beneficia o setor de calçados e a Grendene já fabricava calçados no Rio Grande do Sul desde os anos 70.

3) A empresa fez investimentos com recursos próprios e os referidos incentivos se dão na forma de reduções de impostos sobre as operações derivadas destes investimentos, isto é, se os investimentos tiverem sucesso a empresa usufrui redução de impostos caso contrário perde o valor investido.

4) Os incentivos são concedidos por estabelecimento e projeto com prazos de duração em geral de 10 anos, conforme está explicado em nossas divulgações (Formulário de Referência e Relatório da Administração)

5) A Grendene não tem nenhuma relação com a família de Ciro Gomes;

6) Evidentemente por sermos indústria destacada no estado do Ceará, maior exportador de calçados do país, maior empregador privado no estado do Ceará e um dos maiores contribuintes de impostos do estado ao longo destes quase 30 anos alguns de nossos executivos tiveram contato com o governador do estado, secretários ou prefeitos das cidades onde temos operações (Fortaleza, Crato e Sobral) e neste período várias pessoas da família de Ciro Gomes eventualmente ocuparam estes cargos no estado.

7) Os acionistas fundadores da Grendene, Srs. Alexandre e Pedro Grendene não fazem parte do quadro de executivos da Grendene desde 2013, ocupando vagas no Conselho de Administração que não se envolve no dia a dia dos negócios da Companhia.

8) Não comentamos, até por não termos qualquer tipo de informação neste sentido, as doações eventualmente feitas por pessoas físicas que sejam acionistas da Grendene.

9) Sim, até 2014, quando era permitido pela legislação, a Grendene fez doações a vários partidos políticos, no Ceará e em outros estados, em valores irrelevantes (comparados com os números da companhia evidentemente) e os valores podem ser consultados nos sites do TER/TSE.

10) Não existe nenhuma investigação ou ação penal envolvendo a Grendene que seja de nosso conhecimento.

11) Não sabemos ou conseguimos quantificar se estes comentários tem alguma influência no preço das ações, apenas observamos que a volatilidade do mercado neste período eleitoral tem afetado o mercado como um todo.

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